Amazónia – território hostil, obscuro que desperta medos, fantasias e mitos. Escondido no mapa da maior floresta do planeta, embrenhado numa intricada teia de cursos de água, surge o rio Beni.

Serpenteando a selva amazónica boliviana, na fronteira com o Brasil, com cerca de 1200 quilómetros de extensão, o rio Beni é uma das regiões mais inóspitas do continente. 

Ausentes do mapa geopolítico do mundo, longe de cuidados médicos básicos, dependentes das suas colheitas, as comunidades do Beni lutam todos os dias pela sua sobrevivência.



Impelidos pelo imaginário da aventura, quatro viajantes – Tiago, Eduardo, António e Inácio – embarcaram numa jornada de mil quilómetros pela águas do rio Beni.

Pelo caminho, cruzaram-se com pessoas que vivem em comunhão com a selva, sem eletricidade, telefone ou água canalizada. Comunidades onde a moeda não tem valor e todos trabalham para o bem comum.

“Sobre|Viver” conta as estórias destas gentes – pessoas normais a viver em condições extraordinárias.

AS COMUNIDADES

O glorioso crepúsculo amazónico é um acontecimento trivial para as gentes que vivem nas margens do Beni. Pouco lhes importa se o sol está coberto por uma nuvem ou se os pássaros são vermelhos e azuis ou verdes e amarelos. Sabem que não há tempo para caprichos. Sabem que a natureza por estas bandas é cruel e as primeiras chuvas que agora começam a cair são mau presságio.

A terra lamacenta engole tudo e todos em San António de Tequeje. Com apenas três famílias, esta a comunidade ribeirinha está isolada do mundo pelo rio de um lado e a floresta do outro. Aqui o contacto com o resto do país é quase nulo. A maioria dos habitantes do Beni coexistem numa estrutura social assente na família, num ambiente quase tribal, onde o patriarca é o pilar que sustenta todo o clã.


AS MAIORES DIFICULDADES

CUIDADOS MÉDICOS

FALTA DE ÁGUA POTÁVEL

ISOLAMENTO

MOSQUITOS


Hermes tem de fazer longas viagens nas pirogas peke-peke para chegar aos terrenos de pesca, muitos deles lagoas formadas por antigos meandros do rio que se separaram do curso principal. Para lá chegar tem de percorrer pântanos a pé, sob risco de ataques de caimões, piranhas e anacondas.

Nas comunidades do Beni não existe moeda, muito menos supermercados. A comercialização de bens entre vizinhos é feita através de troca direta de produtos: uma galinha por uma saca de cinco quilos junca, uma dúzia de ovos por um par de peixes acabados de pescar. A pesca e a caça, a par da agricultura, são as principais actividades nas margens do rio Beni.



Gosto de viver na selva, de ver os meus animais e as minhas colheitas a crescer. Aqui estamos dependentes de nós próprios. Todos trabalhamos para o bem comum. Aqui a família é o mais importante na vida de um homem.


Um bebé febril interrompe o choro por segundos, dando à mãe um precioso momento de descanso. Segundo ela, a febre não desce há vários dias, e nada mais lhe resta fazer senão acarinhá-lo. Noutra aldeia, Marcos, ficou em casa por estar com uma forte enxaqueca, que procura curar com um lenço cheio de folhas de coca apertado à volta da cabeça. No Beni é a medicina alternativa que impera. Muitas pessoas, sobretudo crianças, não sobrevivem a simples infeções ou gripes. Em mil quilómetros de rio cruzámo-nos apenas com uma enfermeira e um médico que uma vez por ano percorrem toda a extensão do rio.

Ao longe as cores intensas da Amazónia são o enquadramento perfeito para as aldeias, não deixando antever no entanto a presença de milhares de mosquitos potencialmente mortíferos, numa zona em que a incidência de malária é muito alta, os mosquitos continuam a ser uma das principais causas de morte na Amazónia. À noite, o seu número multiplica-se e o seu zumbido transforma as noites amazónicas num inferno.

AS PESSOAS

Alferes Flores

Com 25 anos, Flores é a única autoridade em mil quilómetros de rio. Sem papas na língua, sentado em frente a uma televisão rodeada de DVD pirata (um luxo alimentado por painel solar), Flores admite que a tranquilidade de Puerto Cavinas o seduz. “As pessoas sabem receber, os dias passam sem grandes percalços. Há pouco trabalho e não tenho ninguém acima de mim na hierarquia militar”, sentencia.

“Capitão” Eddy O’Campo

Eddy, 42 anos, cresceu a navegar o rio Beni e a calcorrear a floresta amazónica boliviana. Para o capitão do Quilombo a selva não tem segredos, conhece-a demasiado bem para temer os caimões, os mosquitos ou os jaguares. Numa missão, por vezes hercúlea, Eddy serve de “bombeiro” transportando doentes, medicamentos, comida e combustível às comunidades mais isoladas do Beni.

Dr. Ricardo Gomez

Ricardo é um homem com uma missão. Médico, nascido e formado em La Paz, mudou-se para a Amazónia por vocação. Durante uma viagem, nos seus anos de estudante, descobriu uma região completamente negligenciada. Ricardo é o único médico na região. “As pessoas aqui estão desamparadas, falta-lhes tudo. Sempre quis marcar a diferença, ajudar realmente quem necessita”.

A AVENTURA

Viajo para documentar e partilhar o que vejo. E o que vi no Beni mudou a forma como encaro a vida. Ficarei muito feliz se esta reportagem fizer o mesmo por quem não pode lá ir.

Tiago Costa
reporter multimédia

Agora, meses após ter regressado, as imagens do Beni aparecem frequentemente no meu pensamento. Quando estou a caminhar em direcção a casa. Quando abro a torneira para beber um copo com água. Quando me deito numa cama macia e quente. Quando me sento no sofá a ver a chuva a cair lá fora. As imagens do Beni invadem-me. Relembrando-me que aquelas pessoas continuam lá. No meio da selva.

Inácio Rozeira
viajante

Não acredito que uma viagem transforme uma pessoa, mas conhecer paradigmas de vida diferentes do nosso é um enorme passo na descoberta de uma nova consciência individual. Abalaram-me convicções de um modo abrupto e fizeram-me olhar para o meu sofá com relatividade. Por isso, acredito que as viagens e as experiências devem ser revividas e recordadas para que nos possamos tornar pessoas melhores.

António L. Campos
fotógrafo

Cruzar 1000km de Amazónia impelido pelas águas barrentas do Beni deixou em mim marcas profundas. Pela pureza das sensações. Pela dureza das condições. Pela incerteza das implicações. Testemunhei um quotidiano difícil, cruzei-me fugazmente com pessoas tenazes que não mais reencontrarei. Gente normal, mas gente especial. Que não esqueço. Que respeito. Que admiro.

Eduardo Madeira
jornalista

Nesta viagem fui atacado por mosquitos e beijado por chuvas tropicais. Amei cada instante. Mas, ainda hoje, é o sorriso das pessoas do Beni que me enche a alma. Testemunhar a tenacidade do povo do Beni é inspirador. A veracidade com que encaram o destino é arrebatadora. Isolar-me num cantinho da Amazónia a escutar as estórias destas gentes foi um privilégio, uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida.

Expostos aos elementos, sem cimento ou alcatrão que os proteja, as comunidades do Beni vivem em contacto directo com a natureza. Lá o mundo é mais real.
O meu trabalho nesta viagem era documentar em vídeo esse quotidiano. Mas, por mais que tenha tentado, as imagens que trouxe não fazem justiça ao que vi naquelas margens.

Tiago Costa


“A pegada fresca de jaguar confirma que o verde denso que cerca os nossos acampamentos é de uma biodiversidade infinita. Árvores gigantescas, plantas raras, flores coloridas. Lagoas e pântanos que escondem piranhas, anacondas ou caimões.”
– 
Eduardo Madeira


As temíveis formigas vermelhas, que na selva costumam cobrir o “Pau do Diabo”, atravessam o nosso caminho. A sua picada é extremamente dolorosa, e o Alferes Flores confidencia que no exército os militares insubordinados são presos durante cinco minutos a umas destas árvores, como forma de punição. A gravidade das picadas é tal que aos dez morreriam.

António Luís Campos



“O barco era a nossa casa. Nele transportamos tudo o que precisava-mos para viver. Mas era também a nossa maior fragilidade. Antes de partir já o tínhamos visto semi-submerso pelo temporal. Se ele nos falhasse a meio do rio – ou se um tronco viesse contra nós – poderíamos estar em apuros.”

O “QUILOMBO”

Em Rurrenabaque nenhuma embarcação rumava a norte. Na verdade, não existiam sequer barcos que já tivessem navegado a totalidade do Beni. Procurámos durante dias nas ruas por alguém que possuísse uma embarcação e estivesse disposto a partir connosco nesta aventura. Foi assim que conhecemos o nosso “capitão” Eddy e o seu barco.

Uma vez negociado o transporte, eram necessários dias para comprar tudo o que seria preciso para a viagem: comida, água, gasolina. Teríamos de levar tudo o que precisávamos connosco. Nesses dias uma chuva tropical assolou Rurrenabaque fazendo-nos questionar se aquele pedaço de madeira seria capaz de nos levar rio abaixo. Cancelar a viagem começou a assombrar os nossos pensamentos.

Na América Latina “quilombo” significa barafunda, caos, desordem. Precisamente o que se passava no barco que nos conduzia rio abaixo. Onde roupa içada ao vento, restos de salada espalhados pelo convés e o barulho infernal de um gerador levaram o nosso capitão a exclamar: “Que quilombo!”. E assim estava batizada a nossa embarcação.


COMPRIMENTO (METROS)

LARGURA (METROS)

VELOCIDADE MÉDIA (KM/H)

CARGA TOTAL (KG)

 

GASOLINA (LITROS)

ÁGUA POTÁVEL (LITROS)

CERVEJAS

OVOS


O grande desafio – de permanecer seis horas por dia num espaço tão redutor – passava pelas relações interpessoais. Estar sempre rodeado pelos mesmos rostos, sem hipótese de fuga pode ser claustrofóbico. Com o avançar da viagem, a proa do Quilombo transformou-se num escape, num confessionário sem cura, onde individualmente procurávamos isolar-nos. Era ali, naquele ponto, onde estibordo e bombordo se tocam, que inconscientemente nos refugiávamos.

Eduardo Madeira

António Luís Campos, Eduardo Madeira,
Inácio Rozeira e Tiago Costa 

Um projecto ao abrigo da Bolsa de Exploração Nomad
Com o apoio da National Geographic Portugal
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 2014